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 Terras do Sem Fim - Jorge Amado

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MensagemAssunto: Terras do Sem Fim - Jorge Amado   Qui Out 16, 2008 3:57 am

Um navio parte do porto da Bahia (Salvador), rumo ao sul, com destino a Ilhéus. Heterogêneos quanto às origens, à cor, é classe social e até mesmo quanto a seus interesses imediatos, os passageiros se identificam em uru ponto: buscam, todos, o novo Eldorado, nas tens da região de Tabocas, município de Ilhéus, nas quais, quase que literalmente, o dinheiro nasce nas copas das árvores na forma de dourados frutos de cacau, cujo visgo mole adem aos pés dos homens e, uma vez chegados, os impede de partir.

No meio de murmúrios e conversas sob a noite que cai, iluminada pelo clarão agourento de uma lua vermelha como sangue, alguns passageiros se destacam: coronéis; aventureiros, trabalhadores, prostitutas e até indivíduos que viajam aparentemente sem destino, O “capitão” João Magalhães, aventureiro e jogador, foge da cidade por ter sido denunciado à polícia por um engenheiro de quem, trapaceando como sempre, tirara até o anel de formatura na mesa de pôquer. O coronel Juca Badaró aproveita a viagem para contratar trabalhadores — entre os quais o mulato sergipano Antônio Vitor — para sua fazenda em Tabocas e ao mesmo tempo procura conquistar Margot, que vai atrás de seu amante, o Dr. Virgílio Cabral, um estudante pobre a quem ajudara formar-se advogado e que agora trabalha na região de Ilhéus. E um velho sertanejo relata a morte de seu filho Joaquim pelas mios dos capangas do coronel Horácio, em Forradas, perto de Tabocas.

A noite avança e no céu a lua sobe, cada vez mais vermelha, deixando um rastro de sangue no mar. Os passageiros dormem embalados pelo balanço do navio e pelos sonhos de fartura no Eldorado do cacau. Noite adentro, qual nau dos insensatos, a embarcação vai silenciosamente sulcando o mar em busca das terras de onde ninguém mais volta. Enquanto isto, entre Tabocas e Ferradas, a mata do Sequeiro Grande dorme seu sono milenar, prestes a ser interrompido pelos machados dos homens que já começam a avançar sobre suas bordas, disputando seu solo fértil e sonhando transformá-lo em novas roças de cacau.

Entre as duas ou três dezenas de proprietários dispostos em torno da mata sobressaem, pela extensão de terras sob seu controle e pelo poder político, a família Badaró, dona da Fazenda Sant’Ana e composta dos coronéis Sinhô e Juca e de Don’Ana, filha do primeiro; o coronel Horácio da Silveira, da Fazenda Bom Nome; o coronel Maneca Dantas, da Fazenda dos Macacos, aliás Auricídia, nome de sua mulher, e o coronel Teodoro Martins, dito das Baraúnas, por ser este o nome de sua fazenda. De um lado da mata, dividida pelo rio, estão os Badaró, do outro está Horácio da Silveira, ficando entre eles, na parte da frente, a fazenda de Naneca Dantas, compadre e aliado indiscutível deste. Acima, na parte de trás, localiza-se a fazenda de Teodoro das Baraúnas, ainda sem tomar partido. Tanto Horácio da Silveira quanto os Badaró mostram-se firmemente dispostos a ocupar e derribar a mata do Sequeiro Grande, e com razão, pois quem conseguisse têla sob seu controle se tomaria praticamente dono da região de Tabocas e de todos os povoados das imediações, incluindo Ferradas, o feudo de Horácio. No período que antecede a luta, os Badaró, apesar de terem o governo estadual a seu lado, parecem estar em desvantagem porque entre eles e a mata há um obstáculo: a roça de um pequeno proprietário, Firmo, eleitor e aliado de Horácio da Silveira. A conselho deste, ele se recusa a venda-la aos Badaró, que o cercam com propostas altamente favoráveis de compra. Diante da recusa terminante de Firmo, só resta aos Badaró, mantida sua pretensão de ocupar a mata, recorrer a um método radical: eliminar o obstáculo. Sinhô vadia em ordenar a morte de Firmo, pois, religioso como é, não quer derramar sangue. Contudo, pressionado por Juca e não tendo alternativa em virtude da posição inamovível de Firmo, decide-se finalmente pela morte deste. O negro Damião, um dos escolhidos para a tocaia, entra em crise — ele ouvira a conversa de Juca e Sinhô, inclusive a relutância do último em mandar assassinar alguém — e, apesar de sua famosa pontaria, erra o tiro, enlouquecendo em seguida. Com este incidente, a tensão cresce e o conflito atinado parece ser a única saída. Paralelamente, contudo, ambos os lados começam a movimentar-se também no plano legal.

Enquanto em Ilhéus os Badaró procuram um engenheiro para fazer a medição das matas do Sequeiro Grande, o Dr. Virgílio Cabral, contratado por Horácio da Silveira, faz um caxixe muito engenhoso, dando um verdadeiro golpe de mestre. Utilizando-se de uma medição antiga, suborna o escrivão Venâncio, dono do cartório de Tabocas, e registra as matas do Sequeiro Grande em nome de Horácio. Teodoro das Baraúnas, que se aliara aos Badaró, é avisado por Don’Ana e incendeia o cartório. A guerra começa e a violência se alastra, alcançando Ilhéus, onde os jornais, de parte a parte, travam terríveis polêmicas através dos prepostos de ambos os lados. É nesta cidade que Juca Badaró, em busca de um técnico que faça a medição das matas do Sequeiro Grande, encontra, em uma roda de pôquer, nada menos que o agora “engenheiro” João Magalhães, o qual, depois de muito relutar e cobrando um preço alto, algo receoso, por óbvios motivos, aceita a tarefa, realizada logo depois aos trancas e barrancos.

Paralelamente ao desenvolvimento do conflito entre os dois “partidos”, os pares vão se formando, com os forasteiros e as mulheres inflamando-se pela paixão: o sergipano Antônio Vítor e Raimunda, o aventureiro e trapaceiro João Magalhães com Don’Ana e, principalmente, o jovem e refinado dr. Virgílio Cabral e Ester, a mulher de Horácio da Silveira. Esta, desde a primeira vez que o vê, nele encontra sua alma gêmea, o mesmo acontecendo com o advogado, que por ela se apaixona perdidamente, rompendo com Margot, a qual, por sua vez, aceita ficar com Juca Badaró, que a cercava insistentemente desde o encontro de ambos na viagem de volta de Salvador. Ester, que fora para o sobrado da família em Ilhéus logo no inicio da luta, entrega-se completamente a Virgílio, passando a alimentar o desejo de fugir com ele e abandonar definitivamente Horácio e o mundo “bárbaro’ de Tabocas e Ferradas, O advogado, por julgar não adiantar tentar fugir de Horácio e também, principalmente, porque tal atitude comprometeria sua carmim política, não quer pensar nesta possibilidade. Enquanto isto, os rumores da perigosa paixão se espalham por Ilhéus e por toda a região e muita gente teme uma tragédia.

Horácio da Silveira, contudo, está mais preocupado com a luta, que atinge um ponto de não retomo com a tocaia ordenada por ele contra Sinhô Badaró, que escapa ileso. Algum tempo depois, Virgílio, por insistência de Horácio, manda tocaiar Juca Badaró, com o qual a desentendem por causa de Margot. Juca também escapa.

Enquanto João Magalhães fica noivo de Don’Ana, integrando-se definitivamente na família e passando a assinarse Badaró, o conflito continua, em marchas e contramarchas. Quando Horário da Silveira é atacado pela febre tifóide, a luta parece sofrer uma inflexão. Contudo, ele consegue recuperar-se e manda continuar a derrubada. Os Badaró, por seu lado, também avançam rapidamente. Por sua vez, Ester, que cuidam de Horácio durante a doença, também adquire a febre e isto faz com que Horácio pareça perder o ímpeto, chegando mesmo a ordenar a suspendo dos trabalhos na mata. Com a morte de Ester, que ocorre pouco depois, deixando tanto Horácio quanto Virgílio desesperados, a luta se amaina durante cerca de um ano, enquanto na Fazenda Sant’Ana se realizam os casamentos de Don’Ana com João Magalhães e de Raimunda com Antônio Vítor. A estas alturas, da mata, atacada por um lado e outro, só resta a metade e a opinião generalizada é de que Horácio está derrotado. Alguns, contudo, julgam que ainda é cedo para fazer prognósticos, principalmente levando-se em conta a grande fortuna do coronel.

De fato, passado algum tempo, fica claro que, com a morte de Ester, Horácio se dedica totalmente á luta e reage nas duas frentes: leva adiante o processo iniciado contra os Badaró pelo incêndio do cartório de Tabocas e para o reconhecimento de seus direitos sobre a mata do Sequeiro Grande e avança cada vez mais na derrubada, além de mandar assassinar Juca Badaró em Ilhéus. As posições voltam a equilibrar-se e o resultado da luta parece indefinido. Depois da morte de Juca, Sinhô Badaró processa Horácio como mandante e ordena tocaias contra ele, para uma das quais se oferece, de livre vontade, o pai de Joaquim, pequeno proprietário que, como outros, fora há alguns anos ludibriado, roubado e posteriormente assassinado a mando do mesmo. Nenhuma das tocaias é bem sucedida e o pai de Joaquim é morto. As escaramuças prosseguem e a derrubada está praticamente chegando ao fim: o som dos machados dos trabalhadores de um dos bandos já pode ser ouvido pelos do outro. O resultado da luta, porém, ainda parece incerto. Certa manhã, contudo, Ilhéus acorda com uma notícia sensacional: o governo federal decretara a intervenção no estado da Bahia. O governador, do partido dos Badaró, é obrigado a renunciar e um interventor assume o poder, com o que a balança se inclina definitivamente a favor de Horácio da Silveira. Em situação difícil, Sinhô Badaró tenta vender antecipadamente a próxima safra de cacau, mas consegue preços miseráveis, o que toma difícil financiar a continuidade da luta. Resolve então jogar seu último trunfo e dá carta branca a Teodoro das Baraúnas, que passa a devastar as propriedades de Horácio, inclusive as roças de cacau, até então preservadas, num acordo tácito, por ambos os lados.

Hábil, Horácio da Silveira, apoiando-se no interventor, mantém-se formalmente dentro da lei. Seus jagunços, vestidos rapidamente de soldados, atacam a casa grande dos Badaró, na Fazenda Sant’Ana, sob o argumento de procurar capturar o incendiário Teodoro das Baraúnas, que ali estaria acoitado. O cerco, comandado pelo próprio Horácio da Silveira, é o último ato de guerra pela posse das matas do Sequeiro Grande. Teodoro das Baraúnas, que de fato ali estava, pretende entregar-se, mas Sinhô Badaró não permite e o faz partir secretamente, com destino ao Espirito Santo. Sinhô ainda resiste quatro dias e quatro noites, depois do que é ferido levado para Ilhéus, por ordens de Don’Ana. João Magalhães, depois de fazer partir também Olga — a viúva de Juca —, Don’Ana e Raimunda, acompanhadas de cinco jagunços, continua resistindo. Contudo, tendo perdido quase todos os seus homens, ele também bate em retirada, acompanhado de Antônio Vítor e mais três cabras sobreviventes.

Ao tentar incendiar a casa grande, um dos homens de Horário quase é morto. Havia alguém entrincheirado, resistindo e tentando acertar o coronel, que avançava protegido pelos jagunços. A revista da casa nada revela. Só restava o sótão Ao ser aberta a porta do mesmo, um homem cai, fuzilado por um tiro, o último, de Don’Ana, que, depois de partir, retomara sem ser percebida. Vá embora, moça... Eu não mato mulher..... diz Horácio, e a deixa partir a cavalo, enquanto a noite se ilumina com as labaredas que consomem a casa grande.

A guerra terminara. Em Ilhéus, o processo movido por Horácio contra os Badaró e Teodoro da Baraúnas pelo incêndio, do cartório chega ao fim. Obviamente com resultado favorável a ele, que tem reconhecido o direito de posse sobre toda a antiga mata do Sequeiro Grande. Por outro lado, no processo de Sinhô contra Horácio por acusação de ser o mandante da morte de Juca, o coronel é absolvido por unanimidade. Sua vitória é completa, nas armas e na lei, aquelas e esta manejadas a seu bel-prazer e segundo seus interesses. Completamente derrotados, os Badaró jamais se recuperariam. O processo de Horácio da Silveira tem um detalhe interessante: a escolha dos jurados, por sorteio, é feita com a colaboração de um menino, o menino que, quando adulto, contaria as histórias daquela terra e das lutas pela posse das matas do Sequeiro Grande.

Passados alguns meses, Horácio chega inesperadamente á Fazenda dos Macacos, que Maneca Dantas sempre insistia, inutilmente, em alterar para Auricidia, nome de sua mulher. Horário vai logo expondo os motivos da visita. Mexendo nos deixados de Ester descobrira algumas cartas de Virgílio. E então entende que a mudança repentina de sua mulher — quando deixara de ser fila e de evitá-lo anos atrás, logo em seguida à chegada de Virgílio a Ferradas — fora produto dela ter-se tomado amante do advogado. Quase sem palavras, parte em seguida, não sem deixar de dizer a Maneca Dantes que mandaria liquidar Virgílio. Pouco tempo depois este também chega à fazenda e Maneca Dantes, que se apegam a Virgílio, tenta em vão demovê-lo de viajar à noite pelo caminho de Ferradas, feudo de Horário, para visitar um cliente. Sem conseguir, joga seu último argumento e informa que Horácio tudo descobrira. Virgílio não se abala. O visgo do cacau mole também o lixara inapelavelmente à terra, através de Ester, e a morte não o assusta. Afinal, perdido o grande amor de sua vida, nada mais Lhe restava.

E à noite parte sozinho. Um tiro no peito, uma vela acendida por Maneca Cantas, uma cruz são os derradeiros atos que fecham uma trágica história do amor, uma história de espantar.

Indiferentes aos dramas pessoais, a história e o processo avançam. Ilhéus é elevada a sede de bispado e dos festejos participa também Sinhô Badaró, coxeando um pouco da pema direita, a que fora ferida no tiroteio final pela posse das matas do Sequeiro Grande. Acompanhado da filha e do genro, ele pode a benção para o neto que vai nascer. Em Tabocas, agora ltabuna, o coronel. Horácio da Silveira, tendo ao lado o bispo de Ilhéus, faz um brinde, bebendo em lembrança de Ester e de Virgílio Cabral, a esposa dedicada e o advogado que lento fizera pelo progresso da região e que fora vitima de seus inimigos políticos.

Pouco tempo depois todos assistiam a um espetáculo inacreditável e inesquecível os cacaueiros plantados na terra que fora a mata do Sequeiro Grande demoraram apenas quatro e não cinco anos para produzir seus dourados frutos. É que aquela terra fora adubada com sangue...

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MensagemAssunto: Personagens Principais   Qui Out 16, 2008 4:00 am


Os coronéis

Iguais na condição de donos da terra e das almas, os coronéis diferenciam-se pelo “quantum” de poder que possuem, pelo ‘partido” a que pertencem, pela maior ou menor adequação ao processo de modernização e por característica pessoais especificas.

Sinhô

O chefe do clã e do ‘partido’ dos Badaró, tem o estilo solene e hierático dos que foram moldados por uma longa tradição de poder. Pessoalmente comedido, justo e equilibrado em seus atos, e até religioso, nem por isto recua diante da inevitável decisão que dá inicio ao conflito. Em seu estilo ponderado, rude e inflexível, Sinhô personifica muito bem a desvantagem inicial em que seu ‘partido’ se coloca diante da habilidade política e tática de Horácio da Silveira, bem mais ‘civilizado’ em seus caxixes e — pelo menos na aparência! —mais ‘civilizado” em seus métodos de conquista e manutenção do poder.

Juca Badaró

Irmão de Sinhô, curva-se à autoridade deste, mas parece querer compensar sua situação de inferioridade através da violência e de suas estripulias. Neste sentido, é muito coerente, no enredo, que seja o único dos coronéis a ser assassinado.

Teodoro Martins

Dito das Baraúnas, o mais importante aliado dos Badaró, é o bárbaro por excelência, o bruto e civilizado disposto e talhado para qualquer trabalho “sujo’, o que é muito bem caracterizado pela antológica seqüência que se desenrola em Tabocas nas comemorações do Dia da Árvore. Coerentemente, é também o único sobre quem recai, ao final, o peso de uma condenação.

Horácio da Silveira

Comanda o ”partido” inimigo dos Badaró, é hábil, astuto, frio e implacável. Com um perfil bem mais “moderno”— mais adequado aos tempos — que os integrantes do clã adversário, Horácio é capaz de fazer reverter a seu favor o conflito em que já aparecia como o grande derrotado. E, paradoxalmente ou não, este seu caráter mais “moderno’ é o responsável por seu desastre no plano pessoal, já que a traição de Ester o marta indelével e irremediavelmente. Tal, porém, é o preço do poder, preço que ele, cerrando os dentes, paga consciente e solitariamente, tendo como vingança o sobreviver a todos.

Maneca Dantes

Aliado de Horário, tem um papel pouco significativo ao longo de quase toda a obra mas sobressai ao final, quando, apesar de sua limitada inteligência, faz força para vislumbrar algo da verdadeira natureza do amor de Ester e Virgílio. Diante da decisão inabalável deste de ir em busca da morte, revela seu caráter compassivo e solidário, capaz até de passar por cima de sua fidelidade a Horário.

O “Capitão” João Magalhães

Aventureiro, jogador, trapaceiro e semimarginal, o “moço distinto’ João Magalhães não consegue, corno os demais adventícios, livrar-se do fatal “visgo do cacau mole” e num golpe de (má) sorte integra-se ao clã dos Badaró, assumindo, surpreendentemente, seu ethos e participando, também surpreendentemente, das ações bélicas ao final da luta pela posse das tens do Sequeiro Grande.

O negro Damião

Entre as dezenas de partidários, “vassalos”, capangas e jagunços dos dois grupos em luta sobressai, por seu caráter de símbolo trágico ao mesmo tempo de sua classe e de sua raça, o negro Damião. Sua consciência, que mal desperta na encruzilhada de uma tocaia —seu caminho de Damasco —, fica emparedada entre a submissão, agora impossível, e a revolta, obviamente inviável. Sem saída, afunda na loucura, uma das “opções’ de todo o marginalizado que consegue intuir o mundo mas que não alcança organizá-lo racionalmente nem, muito menos, transformá-lo efetivamente As mulheres

Ester

Filha da burguesia mercantil baiana, símbolo da mais refinada e sofisticada cultura européia nos trópicos, é, como mulher de Horácio, uma verdadeira exilada, pois a partir de seu casamento, não vive nas cidades da orla atlântica mas no interior “bárbaro’. É a rã que, no chamo, se debate viva na boca da cobra que a devora, na brilhante imagem do autor — que mais tarde abandonaria este delicado e sutil erotismo para, não raio, cair no vulgar e no mau gosto. Violentada de forma contínua e em todos os sentidos, Ester renasce completamente ao encontrar Virgílio, sua outra metade, penhor da viabilidade de seus lindos sonhos juvenis. Mas a tragédia que se desenha claramente no horizonte tem sua marcha sustada pela morte, que antecipa, apenas que sem violência, o confronto final e, assim, ameniza o desenlace. E ela que estava condenada a perder duplamente, como mulher e como “civilizada’, ao morrer antecipadamente impõe-se, paradoxalmente, a Horácio, escapando à sua vingança de “bárbaro”, que tem que contentar-se em executá-la em Virgílio.

Don’Ana

No pólo oposto a Ester, tem, desde sempre, os pés fincados firmemente na terra do cacau e, apesar da improbabilidade, sobrevive ligando-se a um aventureiro, adventício e socialmente marginal como ela. Desta forma escapa à solidão que a ameaçava como possibilidade real, já que sua situação de filha única e possível herdeira do clã exigiria dela - como Margarida em Dona Guidinha do Poço e Maria Deodorina da Fé Bettancourt Marins/Diadorim em Grande Sertão: veredas – que assumisse uma função social reservada aos homens em uma sociedade patriarcal. Contudo, a heterogeneidade da sociedade cacaueira — cano a da sociedade do garimpo em Maria Dusá — é o trunfo que aumenta as probabilidades de um destino biológico e social normal e que, por fim, quase contra toda a esperança, lhe toma possível sobreviver e enquadrar-se sem grandes traumas na sua própria sociedade, que rapidamente se moderniza. Ao contrário de Ester, que mantém até o final seu perfil de personagem trágica, exilada e condenada, a épica Don’Ana se prosaiciza, integrando-se no grupo.

Margot

Prostituta e, portanto, integrando a classe dominada, benfeitora de 1/irgílio, amante deste e depois de Juca Badaró, elegante e sofisticada, vai sendo jogada de um lado para outro, segundo os azares da sorte e do poder que a usa. Culturalmente ‘exilada’ como Ester, e como esta sonhando com a civilização das urbes da costa e de Paris, o que a diferencia dela é saia inferioridade na escala das desses sociais, característica milenar da função que exerce.

Raimunda

Apesar de um perfil psicológico pouco desenvolvido ao longo do enredo, é um personagem contundente, arquetipico da famulagem familiar negra ou mulata do Brasil da casa grande e da senzala. Irmã de leite de Don’Ana e, possivelmente, sua meia-tia, ela recebe as sobras, nos carinhos e em tudo o mais, da caçula dos Badaró. Aliás, seu destino pessoal é o contraponto perfeito, na escala social inferior, ao de Don’Ana. Também Raimunda, criada com regalias estranhas à sua classe e à sua cor, parece condenada à solidão, do que é salva pelo aparecimento do também adventício, e também mulato, António Vítor.

Virgílio

Ambicioso, inteligente e um tanto ingênuo, procurando fazer carreira política rapidamente a partir da então próspera zona cacaueira, Virgílio Cabral, protótipo de doutor civilizado pela cultura europeizada dos núcleos urbanos da costa, é vítima de uma armadilha do destino e não escapa à força do ‘visgo do cacau mole’. O que o prende, contudo, não é o dinheiro nem a ambição mas o amor a uma ‘exilada’, a qual, por sua vez, também está condenada â sina da fuga impossível. Transformado — ou transtornado! — pela experiência do amor e da completa identificação ética com Ester, estóica e romanticamente enfrenta a morte. Não só porque para ele a vida perdem qualquer sentido como, principalmente, porque tal ato é uma homenagem definitiva à memória da amante e uma prova cabal da vitória da ‘civilização’ sobre a ‘barbárie’ que os mantivera separados. E o ultimo conforto que lhe resta é a solidariedade ingênua e inesperada do sentimental Maneca Dantas, não suficiente, contudo, para romper sua completa solidão.

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MensagemAssunto: Estrutura Narrativa   Qui Out 16, 2008 4:01 am

Composto de seis partes — denominadas O navio’, ‘A mata’, ‘Gestação de cidade’, “O mar”, ‘A luta’ e ‘O progresso’ —, cada uma das quais dividida em capítulos em número e de tamanho diversos, Terras do sem fim é, por sua vez, a primeira parte — ‘A terra adubada com sangue’ — de uma história que tem continuidade com mais duas — ‘A terra dá frutos de ouro’ e ‘Aterra muda de dom’ — em São Jorge dos Ilhéus.

Construído segundo o esquema clássico do narrador onisciente em terceira pessoa, a obra se mantém rigidamente fiel ao esquema realista/naturalista da verassimilhança e conta, não raro quase com o rigor de uma crônica histórica, as façanhas dos coronéis feudais —expressão do próprio autor, na nota que precede o ínicio da narrativa — que, movidos pela ambição, ocupam, desbravam e modernizam a região das férteis terras no sul da zona litorânea da Bahia durante o ciclo do cacau.

A ação do romance, diretamente referida à realidade histórico-econômica, se desenrola rio início do séc. XX, ao longo de meia dúzia de anos, ou pouco mais, a partir do começo da segunda década, possivelmente. E tem por palco, à exceção da primeira parte (“O navio”), a cidade de ilhéus e toda a região que, margeando o Rio Cachoeira, avança sertão adentro e vê, com o ciclo do cacau, o surgimento e o crescimento de povoados como Tabocas (depois ltabuna), Ferradas, Pirangi, Palestina e outros. Como particularidade da estrutura narrativa deve-se destacar a presença do autor como personagem, explicitamente Identificado como o menino que sorteia os jurados no julgamento de Horário da Silveira ao final do romance.

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MensagemAssunto: Autor   Qui Out 16, 2008 4:06 am

Nascido em Itabuna, Bahia, no dia 10 de agosto de 1912, Jorge Amado passou a infância na cidade de Ilhéus, onde presenciou a luta entre fazendeiros e exportadores de cacau, inspiração para vários de seus livros.

A partir de 1930, na cidade do Rio de Janeiro, começou a estudar direito e a lançar romances. As obras eram marcadas pelo realismo socialista: se passavam nas plantações de cacau do sul da Bahia ou na cidade de Salvador e mostravam os conflitos e as injustiças sociais. "O país do carnaval" (1932), "Cacau" (1933), "Suor" (1934), "Jubiabá" (1935), "Mar morto"(1936), "Capitães de areia" (1937), "Terras do sem fim" (1942), "São Jorge dos Ilhéus" (1944) e "Os subterrâneos da liberdade" (1952) fazem parte da leva. Nessa primeira fase, seus livros eram considerados documentários dos problemas brasileiros causados pela transição de uma sociedade agrária para industrial.

Eleito deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro em 1945, teve seu mandato cassado como os de todos os membros da mesma agremiação. Viajou então pela Europa e pela Ásia e voltou ao país em 1952. Quatro anos mais tarde, fundou o semanário "Para todos", sendo eleito para a Academia Brasileira de Letras em 1961.


A segunda fase de sua obra começou com o lançamento de "Gabriela, cravo e canela", em 1958. Seus textos passaram a se caracterizar pelas sátiras e pelo humor. Nela ainda foram publicados sucessos como "Dona Flor e seus dois maridos" (1966), "Tenda dos milagres" (1969), "Teresa Batista cansada de guerra" (1973) e "Tieta do Agreste" (1977), entre outros.

Jorge Amado escreveu ainda "O mundo da paz" (1950), um relato de viagem, "Bahia de todos os santos" (1945), um guia da cidade de Salvador , "O cavaleiro da esperança" (1945), a história de Luis Carlos Prestes, e "ABC de Castro Alves" (1941), uma biografia de Castro Alves. Aos oitenta anos de idade, em 1992, publicou "Navegação de cabotagem", um romance autobiográfico.

Vários de seus trabalhos foram adaptados para rádio, cinema e televisão e foram traduzidos para mais de trinta idiomas, o que lhe rendeu inúmeros prêmios. Em 1979, casou-se com a também escritora Zélia Gattai.

O escritor já publicou inúmeras obras: 25 romances; dois livros de memórias, duas biografias, duas histórias infantis e uma infinidade de outros trabalhos, entre contos, crônicas e poesias.

Faleceu em Salvador no dia 6 de agosto de 2001.



Fonte: www.livrosparatodos.net

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