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 Os melhores poemas - Murilo Mendes

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MensagemAssunto: Os melhores poemas - Murilo Mendes   Qui Out 09, 2008 5:00 am

Iniciou-se na literatura escrevendo nas revistas modernistas Terra Roxa, Outras Terras e Antropofagia.
Os livros Poemas (1930), História do Brasil (1932) e Bumba-Meu-Poeta, escrito em 1930, mas só publicado em 1959, na edição da obra completa intitulada Poesias (1925-1955), são claramente modernistas, revelando uma visão humorística da realidade brasileira.

Tempo e Eternidade (1935) marca a conversão de Murilo Mendes ao catolicismo. Nesse livro, os elementos humorísticos diminuem e os valores visuais do texto são acentuados. Foi escrito em colaboração com o poeta Jorge de Lima.

Nos volumes da fase seguinte, Poesia em Pânico (1938), O Visionário (1941), As Metamorfoses (1944) e Mundo Enigma (1945), o poeta apresenta influência cubista, superpondo imagens e fazendo o plástico predominar sobre o discursivo. Poesia Liberdade (1947), como alguns outros livros do poeta, foi escrito sob o impacto da guerra, refletindo a inquietação do autor diante da situação do mundo.

Em 1954, saiu Contemplação de Ouro Preto, em que Murilo Mendes alterou sua linguagem e suas preocupações, reportando-se às velhas cidades mineiras e sua atmosfera. Daí por diante, o poeta lançou-se a novos processos estilísticos, realizando uma poesia de caráter mais rigoroso e despojado, como em Parábola (1946-1952) e Siciliana (1954-1955), publicados em Poesias (1925-1955). As características desse período atingem sua melhor realização no livro Tempo Espanhol (1959). Em 1970, Murilo Mendes publicou Convergência, um livro de poemas vanguardistas. Murilo Mendes também publicou livros de prosa, como O Discípulo de Emaús (1944), A Idade do Serrote (1968), livro de memórias, e Poliedro ( 1972). Ao morrer, em Lisboa, deixou inéditas várias obras.

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MensagemAssunto: O menino Experimental   Qui Out 09, 2008 5:04 am

O Menino Experimental - Murilo Mendes

O Menino Experimental é uma antologia da obra de Murilo Mendes (1901, Juiz de Fora, MG/ 1975, Lisboa), poeta que ganhou notoriedade no Segundo Tempo Modernista (1930-45), quando se engajou na famosa Poesia Católica, de caráter espiritualista. No entanto, a obra analisada aqui não enfoca apenas esse lado do autor.

De fato, é-lhe característico o dom e a facilidade com que transita por inúmeras formas e temáticas, num experimentalismo raro em nossa literatura. Contraditoriamente – e aqui está a sua força – toda essa variação gira ao redor dos mesmo elementos.

Já se disse que sua produção, caleidoscópica, não se torna caótica porque reúne suas múltiplas faces em círculos concêntricos.

O primeiro volume a ser analisado é o de sua estréia, Poemas, que engloba textos de 1925 a 1929, ou seja, em plena iconoclastia do Primeiro Tempo Modernista. Note no poema abaixo o encaixe perfeito nos ideários da época.

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem macieiras da Califórnia

onde cantam gaturamos de Veneza.

Os poetas da minha terra

são pretos que vivem em torres de ametista,

os sargentos do exército são monistas, cubistas,

os filósofos são polacos vendendo a prestações.

A gente não pode dormir

com os oradores e os pernilongos.

Os sururus em família têm por testemunha a Gioconda.

Eu morro sufocado

em terra estrangeira.

Nossas flores são mais bonitas

nossas frutas mais gostosas

mas custam cem mil réis a dúzia.

Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade

e ouvir um sabiá com certidão de idade!

Destacam-se, além dos versos brancos e livres, a paródia à tradição romântica, pois o poema inverte o tom de sua matriz, o “Canção do Exílio” de Gonçalves Dias.

Há também o nacionalismo crítico, sintetizado em “Eu morro sufocado/ em terra estrangeira”, em que o poeta relativiza nosso ideário nacionalista – estamos inundados de elementos importados.

Existem também aspectos apoéticos colocados no corpo do poema, como “mas custam cem mil réis a dúzia”. Murilo Mendes mostra-se, nesta obra, fiel aos postulados de Mário e Oswald de Andrade.

Mas o artesão mineiro não foi apenas um epígono, um mero seguidor do que estava na moda.

Soube dar contribuições próprias, principalmente numa tendência intelectual – infelizmente provocador de um prosaísmo nocivo em boa parte de sua produção – que inovou o tecido poético do texto, além da sensualidade explosiva, uma das bases do tripé de seu fazer poético. É o que percebemos no poema abaixo.

AQUARELA

Mulheres sólidas passeiam no jardim molhado de chuva,

o mundo parece que nasceu agora,

mulheres grandes, de coxas largas, de ancas largas,

talhadas para se unirem a homens fortes.

A montanha lavada inaugura toaletes novas

pra namorar o sol, garotos jogam bola.

A baía arfa, esperando repórteres...

Homens distraídos atropelam automóveis,

acácias enfiam chalés pensativos pra dentro das ruas,

meninas de seios estourando esperam o namorado na janela,

estão vestidas só com um blusa, cabelos lustrosos

saídos do banho e pensam longamente na forma

do vestido de noiva: que pena não ter decote!

Arrastarão solenemente a cauda do vestido

até a alcova toda azul, que finura!

A noite grande encherá o espaço

e os corpos decotados se multiplicarão em outros.

Note como o poema é ousado não só nas imagens eróticas, mas na associação que estabelece entre palavras. É de uma beleza estonteante a polissemia realizada no termo “aquarela” e a idéia de umidade, presente em inúmeros momentos.

Tudo sugere tanto a novidade, a inauguração, a festividade, como a sensualidade, numa massa compacta que o poeta vai diluindo diante de nossos olhos, como um aquarelista diluindo em água uma massa compacta de tinta.

A outra obra a ser representada é Bumba-Meu-Poeta (1930), que continuará a usar e valorizar a cultura popular, conforme as regras do Primeiro Tempo Modernista.

No entanto, por meio da redondilha maior o poeta fará girar todo o seu universo pessoal e social, uma oscilação muito comum em sua obra.

Há um aspecto crítico, meio frouxo porque panfletário, sobre a pouca valorização que a sociedade dá ao papel do poeta.

Em seguida há História do Brasil, de 1932, em que, no espírito dos poemas-piadas, todo o nosso passado “célebre” vai ser dessacralizado. Observe-se no poema abaixo transcrito esses aspectos:

DIVISÃO DAS CAPITANIAS

A primeira pros londrinos,

Pra assentarem telefones,

Bondes puxados a burros

Naturais deste país;

Cruzados nos emprestaram

A cinco por cento ao mês.

A segunda aos holandeses,

Pra ensinarem a fazer queijo,

Lidar direito com moinhos

E algumas regras de asseio.

A terceira pros franceses,

Que trouxeram nas fragatas

Muitos vidros de perfume,

Mulheres muito excitantes,

Maneiras finas, distintas

E romances de adultério.

Quem falou francês foi nós.

A quarta foi para os turcos,

Pra vender chitas, miçangas

Na porta das mamelucas.

Compraram a capitania

Em diversas prestações.

(...)

É importante perceber que o passado mistura-se ao presente de forma cômica e iconoclasta, servindo para criticar e explicar o presente.

Em O Visionário (1930-3) Murilo Mendes realiza um enorme salto, abarcando técnicas do Surrealismo (associação insólita entre idéias, como se fosse produto da escrita automática dominada por elementos oníricos ou do subconsciente).

A segunda e a mais famosa base do seu tripé poético estava alcançada. Inicia-se também aqui uma busca desesperada pelo Absoluto, pelo Infinito, pelo Eterno, que desencadeará uma agonia responsável, nas próximas obras, pela visão apocalíptica que derramará sobre o mundo.

Observe-se a beleza plástica inovadora presente em poemas como o seguinte:

METADE PÁSSARO

A mulher do fim do mundo

Dá de comer às roseiras,

Dá de beber às estátuas,

Dá de sonhar aos poetas.



A mulher do fim do mundo

Chama a luz com um assobio,

Faz a virgem virar pedra,

Cura a tempestade,

Desvia o curso dos sonhos,

Escreve cartas ao rio,

Me puxa do sono eterno

Para os seus braços que cantam.

Essa obsessão pelo absoluto desaguará na terceira base do tripé, que é a poesia mística de Tempo e Eternidade (1934), escrito em parceria com Jorge de Lima.

É um momento interessante, pois, se de uma lado sua tendência à prolixidade e prosaísmo vai-se exacerbar, graças à influência dos versículos bíblicos, tão em moda na época, Murilo Mendes vai-se destacar de seu momento ao fazer dessa busca religiosa nada mais do que algo mais ousado: a sondagem da linguagem mística e de seu aspecto mágico e poético. Assim, a força sagrada e encantatória dá beleza a textos como o seguinte:

NOVÍSSIMO JOB

-- Eu fui criado à tua imagem e semelhança.

Mas não me deixaste o poder de multiplicar o pão do pobre,

Nem a neta de Madalena para me amar,

O segredo que faz andar o morto e faz o cego ver.

Deixaste-me de ti somente o escárnio que te deram,

Deixaste-me o demônio que te tentou no deserto,

Deixaste-me a fraqueza que sentiste no horto,

E o eco do teu grande grito de abandono:

Por isso serei angustiado e só até a consumação dos meus dias.

Por que não me fizeste morrer pelo gládio de Herodes,

Ou por que não me fizeste morrer no ventre da minha mãe?

Não me liguei ao mundo, nem venci o mundo.

Já me julguei muito antes do teu julgamento.

E já estou salvo porque me deste a poeira por herança.

(...)

Esse livro concentrará o grande problema de Murilo Mendes: suas boas idéias – que são muitas – acabam prejudicadas, diluídas por sua prolixidade.
A solução surgirá graças a seu grande amigo e mestre, Ismael Nery, que lhe aconselha a concisão.

Esse ditame começa a ser observado em Os Quatro Elementos (1935), em que a imagética rica e o estilo enxuto detonarão no poeta uma energia intensa da conciliação e estabilização das contradições que vinha sempre sofrendo.
É quando expõe o barroquismo de seu fazer literário, como no texto abaixo:

ANTI-ELEGIA Nº 1

O dia e a noite são ligados pelo prazer

E pelas ondas do ar

A vida e a morte são ligadas pelas flores

E pelos túneis futuros

Deus e o demônio são ligados pelo homem.

Essa tensão de conciliação das contradições acaba explodindo na visão apocalíptica de A Poesia em Pânico (1936-7). Note a força do poema a seguir:

O EXILADO

Meu corpo está cansado de suportar a máquina do mundo.

Os sentidos em alarme gritam:

O demônio tem mais poder que Deus.

Preciso vomitar a vida em sangue

Com tudo o que amaldiçoei e o que amei.

Passam ao largo os navios celestes

E os lírios do campo têm veneno.

Nem Job na sua desgraça

Estava despido como eu.

Eu vi a criança negar a graça divina

Vi o meu retrato de condenado em todos os tempos

E a multidão me apontando como o falso profeta.

Espero a tempestade de fogo

Mais do que um sinal de vida.

Ainda assim, esse misticismo não tirará de campo a sensualidade e a idolatria erótica à amada.

Pelo contrário, haverá até momentos em que a imagem da mulher objeto sexual e a mulher depositário do sagrado (repetição do culto à Virgem Maria) estarão unidas numa única figura, como no poema “Igreja Mulher” (“A igreja toda em curvas avança para mim”).

Essa fusão também será encontrada em As Metamorfoses (1938-41), obra em que o delírio surrealista vai-se mostrar como fruto de uma busca incessante pelo Infinito.

É a busca por identidade ou algo que dê sentido à existência. É poesia do conhecimento. Veja como isso se manifesta no poema a seguir:

A MARCHA DA HISTÓRIA

Eu me encontrei no marco do horizonte

Onde as nuvens falam,

Onde os sonhos têm mãos e pés

E o mar é seduzido pelas sereias.

Eu me encontrei onde o real é fábula,

Onde o sol recebe a luz da lua,

Onde a música é pão de todo dia

E a criança aconselha-se com as flores.

Onde o homem e a mulher são um,

Onde espadas e granadas

Transformaram-se em charruas,

E onde se fundem verbo e ação.

Estamos próximos da maturidade de Murilo Mendes, já vislumbrada em Mundo Enigma (1942), do qual o poema abaixo atesta sua força imagética, além de ser quase uma súmula da capacidade do poeta:

POEMA BARROCO

Os cavalos da aurora derrubando pianos

Avançam furiosamente pelas portas da noite.

Dormem na penumbra antigos santos com os pés feridos,

Dormem relógios e cristais de outro tempo, esqueletos de atrizes.

O poeta calça nuvens ornadas de cabeças gregas

E ajoelha-se ante a imagem de Nossa Senhora das Vitórias

Enquanto os primeiros ruídos de carrocinhas de leiteiros

Atravessam o céu de açucenas e bronze.

Preciso conhecer meu sistema de artérias

E saber até que ponto me sinto limitado

Pelos sonhos a galope, pelas últimas notícias de massacres,

Pelo caminhar das constelações, pela coreografia dos pássaros,

Pelo labirinto da esperança, pela respiração das plantas,

E pelo vagido da criança recém-parida na Maternidade.

Preciso conhecer os porões de minha miséria,

Tocar fogo nas ervas que crescem pelo corpo acima,

Ameaçando tapar meus olhos, meus ouvidos,

E amordaçar a indefesa e nua castidade.

É então que viro a bela imagem azul-vermelha:

Apresentando-me o outro lado coberto de punhais,

Nossa Senhora das Derrotas, coroada de goivos,

Aponta seu coração e também pede auxílio.

Os delírios discursivos parecem atingir, com um tempero barroquista, o máximo do inusitado, sempre na busca do Absoluto, em Poesia Liberdade (1943-5), obra cujo título, já se disse, simboliza o grande objetivo desse artista mineiro.

Um caminho novo é aberto em Sonetos Brancos (1946-8): o uso da rígida forma fixa. Por meio dos seus sonetos, vislumbramos a futura queda na elaboração poética de Murilo Mendes.

Se antes ele pecava por pender só para o conteúdo, melhorou ao conciliar, entre tantos opostos, a forma e o conteúdo. No entanto, a partir da presente obra podemos antecipar o relaxamento, a frouxidão que se resultará na dedicação quase que exclusiva ao outro eixo do discurso: a forma.

Em suma, Murilo Mendes não pode ser extremista – tem de buscar o equilíbrio. Porém, este livro ainda apresenta o vigor do poeta, como abaixo:

O ESPELHO

O céu investe contra o outro céu.

É terrível pensar que a morte está

Não apenas no fim, mas no princípio

Dos elementos vivos da criação.



Um plano superpõe-se a outro plano,

O mundo se balança entre dois galhos,

Ondas de terror que vão e voltam,

Luz amarga filtrando destes cílios.



Mas quem me vê? Eu mesmo me verei?

Correspondo a um arquétipo ideal.

Signo de futura realidade sou.



A manopla levanta-se pesada,

Atacando a armadura inviolável:

Partiu-se o vidro, incendiou-se o céu.

Observe a constante noção de equilíbrio a ser rompido, a superposição de planos e objetos, os fortes dualismos de sabor barroquista, a busca pelo Absoluto, a sondagem da identidade e a visão apocalíptica.

Em outras palavras, ainda aqui se manifesta o tempero intelectual de Murilo Mendes.



Fonte: www.vestibuol.com.br

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